NOTA DE FALECIMENTO – SUZANA AMARAL

 

Suzana Amaral, uma das grandes cineastas brasileiras, faleceu em São Paulo na tarde desta quinta, 25 de junho. De humor perspicaz, Suzana costumava variar a informação de sua data de nascimento. Em mais de 50 anos de cinema, foi cineasta, professora, crítica; realizou mais de cinquenta curta-metragens documentais para a televisão e cinema e três premiados longas-metragens de ficção, que consolidaram seu prestígio no Brasil e internacionalmente.

Já mãe de nove filhos, Suzana ingressa no curso de cinema da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) em 1968, onde realiza curtas como Experiência 3 (1969) e Eu sou você, nós somos eles (1970). Após se formar em 1971, passou alguns anos lecionando cinema no mesmo curso e inicia uma importante trajetória como documentarista, realizando documentários para o extinto programa Câmera Aberta, da TV Cultura. Em 1976 é contemplada com uma bolsa de estudos na Tisch School of the Arts da New York University. Nos Estados Unidos vive um intenso período de estudo do cinema, aperfeiçoando sua técnica através da pesquisa do som e da fotografia, cursando também direção e interpretação de atores no Actor’s Studio. Em 1979 finaliza o documentário Minha vida, minha luta, vencedor do prêmio de melhor média-metragem no Festival de Cinema de Brasília.

“É claro que os documentários eram outra linguagem, outra coisa, mas eu sempre quis trabalhar com o ator. Essa vocação de trabalhar com o ator foi o que me levou para o longa-metragem.” (Revista Filme Cultura 48, novembro de 1988)

De volta ao Brasil, Suzana continua seus trabalhos para a televisão e, paralelamente, inicia a adaptação de A hora da estrela, obra-prima literária de Clarice Lispector, considerada “infilmável” até então. A cineasta dedica-se a criar imagens e sons que correspondam ao desafio e A hora da estrela chega aos cinemas em 1986.

A obra conta a história de Macabéa, nordestina orfã de pai, mãe e tia de criação, que se muda para São Paulo para ser datilógrafa. Vive uma rotina simples e silenciosa, em grande interpretação da atriz , então estreante, Marcélia Cartaxo. O filme recebeu diversos prêmios no Brasil – como filme, direção, atriz, ator (José Dumont), fotografia (Edgar Moura) e montagem (Idê Lacreta), no Festival de Brasília – e no mundo, como melhor direção no Festival de Havana e o Urso de Prata de melhor atriz para Marcélia Cartaxo e o prêmio da crítica internacional no Festival de Berlim. Bastante cultuado, A hora da estrela tem sido visto por diversas gerações desde então, tornando-se um clássico do cinema brasileiro.

Com a extinção da Embrafilme e a escassez de recursos para a realização de filmes no Brasil no começo da década de 1990, Suzana realiza a série de televisão Procura-se (1992), para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP). Trabalha como crítica de cinema, participa de júris e comitês de seleção de festivais de cinema e volta a lecionar cinema. Em meados da década, inicia uma adaptação de um projeto jamais concluído – a adaptação do romance O caso Morel, de Rubem Fonseca.

Apaixonada pela literatura, Suzana lança seu segundo longa-metragem em 2001, Uma vida em segredo, adaptação do romance homônimo de Autran Dourado. Retomando características de linguagem semelhantes ao filme anterior, Uma vida em segredo conta a história de Biela, jovem interiorana que vai viver com parentes distantes após a morte do pai, mas que silenciosamente se recusa a mudar seu modo de vida para se adequar a uma nova realidade. A qualidade da direção de atores possibilita a descoberta de uma nova atriz, Sabrina Greve. Por Uma vida em segredo, Sabrina foi escolhida melhor atriz no Festival de Brasília, iniciando uma importante filmografia como atriz e diretora.

Susana lança seu terceiro e último longa-metragem de ficção em 2009, a adaptação do romance de João Gilberto Noll, Hotel Atlântico. O filme conta a história de um artista, interpretado por Júlio Andrade, que decide viajar após presenciar a retirada de um cadáver pelo IML no hotel do título. Misterioso e intrincado, o filme apresenta diversos pequenos personagens criados pela cineasta e seu elenco.

Suzana Amaral participou de importantes ações da Cinemateca Brasileira, em exibições especiais onde pode conversar com o público sobre seu trabalho. Em 2019, na segunda edição da Mostra Mulheres, Câmeras e Telas, foi um dos destaques do debate Imagens por mulheres, ao lado da fotógrafa e cineasta Flora Dias, a projecionista da Cinemateca, Carmen Genaro e a montadora Cristina Amaral. Em 2018, o público do vão livre do MASP teve a oportunidade de prestigiar a exibição de Uma vida em segredo, apresentado em cópia 35mm por ocasião das comemorações do Dia do Patrimônio Audiovisual (UNESCO), realizada em parceria com a Mostra Internacional de Cinema de SP.

Para a Cinemateca, seus colaboradores e público, fica o registro da extrema importância de sua filmografia e a marcante presença em diversas ações da instituição. E a certeza de que sua obra fundamental permanecerá como das mais inspiradoras em nossa cultura.
Aos familiares e amigos, nossos pêsames.